Carlos Henrique Pereira Maia

A arte é um caminho de paz que conduz a Deus, o Artista dos artistas.

Textos

ASSIM FALOU O MESTRE
      A existência é um imenso reservatório de mistérios à espera de reflexão e o homem precisa pensar, submetendo todo conhecimento intuitivo ao tribunal da razão. “Não se turbe o seu coração nem se atemorize; creia em Deus e creia também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas (colônias espirituais). Vou preparar-lhe um lugar”. Assim falou Jesus Cristo.
      O amigo é o lenitivo para o tédio ocasional. Não o procure nas horas mortas. Antes o procure nas horas vivas. Porque ele preenche o pequeno espaço da vida terrena, mas não grande o vazio existencial. Este abismo sem fundo que existe na alma humana só Deus tem a dimensão infinita para preencher. Se faltar o amigo, temos o tédio; se faltar Deus, temos a solidão. Este é um conto sobre a vida além da vida, já que a morte é uma ilusão alimentada pelo ceticismo, que é uma espécie de suicídio da razão dos cientificistas que têm mais interrogações que elucidações em face dos mistérios da existência.      
      Era lá que o seu pensamento estava. Na infância. Sentado no sofá da sala, fitava o retrato sobre a mesa. Uma onda de saudade lhe invadiu a alma. Depois de alguns minutos, levantou-se e caminhou até a porta. Girou a chave duas vezes. Saiu para passear na praça que ladeava o prédio onde residia. Enquanto andava em passos lentos, tentava apagar da mente o pensamento saudosista. Estava prestes a desistir quando ouviu uma voz feminina chamá-lo pelo nome.
      — Domênico, sou eu!
      Sem pestanejar, parou e desviou o olhar para a direita.
      — Você por aqui?
      A mulher levou algum tempo para dizer o que pretendia naquele encontro.
      — Quero que você me acompanhe até à minha casa.
      — Esqueceu o endereço? — brincou Domênico.
      — Não, mas quero ir com você.
      — Tudo bem. Vamos até lá!
      Assim que entraram na casa, Domênico coçou a cabeça e perguntou à Cassandra:
      — Que é isso?
      A voz dela parecia presa na garganta quando respondeu:
      — Quando cheguei da padaria o encontrei estendido sobre o chão da cozinha. Agachei-me e tentei acordá-lo, pensando que estava apenas dormindo. Murilo morreu.
      Os olhos castanhos de Domênico voltaram-se rapidamente para a porta da cozinha, por onde passou até chegar à mesa da sala, onde ficava o aparelho telefônico. Fez uma ligação para o Corpo de Bombeiros Militar informando que ocorrera uma morte suspeita. Forneceu o endereço e retornou para a cozinha, onde Cassandra enxugava as lágrimas com uma toalha de rosto que pegara no varal da copa. Depois de poucos minutos, alguém tocou a campainha. Cassandra correu até a sala e abriu a porta. O rabecão havia chegado. Mal conseguindo controlar o nervosismo, Cassandra pediu para que os dois bombeiros militares entrassem. Imediatamente colocaram o cadáver sobre a maca e o transportaram até o rabecão. Foi tudo muito rápido. Domênico acompanhou a amiga até a delegacia policial da circunscrição, que ficava a dois quarteirões de onde morava, para registrar a inesperada ocorrência. O casamento ocorrera há apenas cinco meses. Murilo e Cassandra alugaram aquela casa por um ano, até que conseguissem obter um financiamento bancário para a aquisição de um apartamento de dois quartos no centro da capital catarinense Florianópolis, onde viviam desde o nascimento.
      Cassandra não chegou a entrar em estado de choque, mas estava emocionalmente abalada. De acordo com a literatura médica, o estado de choque emocional é um transtorno transitório que decorre de eventos traumáticos que ocasionam um grau extremo de estresse psíquico devido à perda inesperada de um ente querido. Essa crise geralmente desaparece com o passar do tempo. Caso o transtorno emocional se prolongue no tempo, é recomendável que a pessoa afetada pelo sentimento de luto procure a orientação de um especialista em saúde mental. O evento traumático pode ser revivido de algumas maneiras. Por exemplo, no estado de sono por meio de sonhos repetitivos com o evento traumático; no estado de vigília, pelo sentimento de angústia experimentado em situações que lembrem o evento traumático.
      A declaração de óbito emitida pelo perito legista relatou que o óbito ocorrera por envenenamento, tendo sido procedida na sala de autópsia a coleta de uma amostra de sangue para efeito de exame toxicológico. As causas do suicídio costumam envolver, dentre outros motivos, as situações de depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e uso excessivo de drogas, conforme fora informado à Cassandra pelo perito legista que atendeu à solicitação de perícia médico legal feita pela autoridade policial.
      Algumas pessoas acreditam que chega um momento que se torna inevitável a decisão de colocar um ponto final na vida, seja por desavenças familiares, fracasso profissional, desilusão amorosa e até mesmo crise existencial, envolvendo ou não algum tipo de distúrbio mental. Um detalhe interessante é que não existe uma faixa etária que apresente uma maior incidência de suicídio. Afinal, será o suicídio a maneira mais eficaz para alguém se libertar dos problemas inerentes à vida terrena? Talvez o milagre da existência seja uma experiência forte demais para alguns seres humanos.
      Em busca de melhores condições de vida, algumas pessoas que se encontram na linha da extrema pobreza, desassistidas nas regiões menos favorecidas pelo modelo de produção capitalista, deslocam-se para regiões mais industrializadas. A migração do campo para a cidade é chamada de êxodo rural, uma realidade vivida por muitas famílias motivada pela mecanização das atividades agropecuárias. Uma parte significante dos migrantes brasileiros dirige-se para a região sudeste do país. A história da população economicamente hipossuficiente brasileira é uma história de migração. A mobilidade espacial da população carente contribui para a elevação dos índices de desemprego, subemprego e criminalidade nos bolsões de miséria dos grandes centros urbanos. Outras pessoas, para fugir de um sofrimento moral severo decorrente das vicissitudes da vida, deslocam-se para outras regiões do país. Nesse caso, não há um destino certo. A motivação da mobilidade espacial dessas pessoas é a fuga, numa tentativa de escapar de fatalidades ou situações que lhes proporcionaram um transtorno emocional insuportável. Muitas vezes, o desconforto emocional responde pelo surgimento dos andarilhos. A perda súbita do marido fez de Cassandra uma andarilha. Pensamentos de aniquilamento tornaram-se os seus companheiros íntimos. Em determinados momentos, pensou até em cometer o mesmo ato desesperado que o marido cometera, mas a fé em Deus falou mais alto em todas essas ocasiões.
      Na manhã de um dia de verão, fez uma visita ao amigo Domênico. Depois de alguns minutos de conversa, despediu-se dele com um forte abraço, dizendo-lhe que faria uma viagem para o México, onde tinha parentes dos falecidos pais. Antes de sair, entregou ao amigo o par de alianças de casamento, pedindo em tom de súplica que o guardasse com carinho. O que ele não sabia era que manteria as alianças guardadas pelo resto da vida. A amiga de infância nunca mais retornou da viagem. Dois anos e meio depois do seu desaparecimento, no mês de julho, foi encontrada morta à beira de uma rodovia no estado de Goiás. Talvez tenha sido acometida de hipotermia. O inverno foi rigoroso naquele ano. Como não tinha familiares no Brasil, Cassandra foi sepultada como indigente. Domênico não teve notícia do falecimento. Para ele, a amiga decidira se erradicar em Guadalajara, para onde havia alegado que viajaria a passeio. No entanto, ela fora passear no planalto da eternidade. Apesar do desencontro na planície terrena, quem sabe Murilo e Cassandra se reencontraram lá? Quem sabe o amor seja eterno? Quem sabe?
      — Onde estou? — perguntou Cassandra.
      — Você está num hospital — respondeu o médico à beira do leito.
      — Não me lembro de nada.
      — Com o passar do tempo você vai se lembrar.
      Cassandra usava uma túnica branca. O médico colocou a mão na testa dela.
      — Que a paz esteja com você — disse o médico.
      — Estou me sentindo aliviada — comentou Cassandra tentando disfarçar o medo.
      — Dei uma medicação para você. Aos poucos vai se sentir mais disposta.
      Na manhã seguinte, Cassandra levou um susto ao despertar do sono. Murilo estava ao seu lado com um olhar afetuoso.
      — Minha querida, quando estiver recuperada, poderá frequentar o serviço de assistência espiritual aos desencarnados.
      — Desencarnados? — indagou assustada.
      — Sim. Você desencarnou devido a uma hipotermia. Eu passei algum tempo no Umbral até que um samaritano me resgatou das trevas e me trouxe para cá. O meu erro foi perdoado.
      Finalmente Cassandra deu-se conta de que tinha falecido. A presença de Murilo era a prova disso.
      — Você está com a aparência remoçada — observou ela com o olhar fixo em Murilo.
      — Você também. Olhe-se no espelho pendurado na parede do seu lado esquerdo.
      Enquanto se olhava no espelho, passava as mãos pela tez. De fato, remoçara.
      — Agora acredito na reencarnação — disse ela com o semblante sorridente.
      Nesse instante, o médico entrou no quarto. O rosto dele estava iluminado e a luz transmitia uma sensação agradável ao casal.
      — Deus existe e nós existimos nele — afirmou o médico.
      Uma semana depois, Cassandra recebeu alta do médico e foi morar com Murilo numa casa da colônia espiritual, ladeada por um lago de água cristalina. O casal viveu feliz por longos dias na morada que lhe fora preparada no Céu.


      














Carlos Henrique Pereira Maia
Enviado por Carlos Henrique Pereira Maia em 18/09/2017
Alterado em 29/09/2017
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