

O MÁRTIR E O TIRANO
A vida tem palmeiras, seringueiras,
tem o verdor exuberante dos matagais. O mundo tem edifícios, presídios, tem a extinção repugnante dos animais. A vida disputa com o mundo o direito de nascer, de crescer e de multiplicar-se. O mundo impõe à vida a pena de morte, de exclusão e de miséria. A vida manifesta-se no nascimento de uma criança, exigindo cuidados que consomem todos os minutos de um dia histórico. O mundo revela-se na figura de um homem internado em coma alcoólico, após um surto de intemperança. A vida é celebrada nas quatro estações do ano, cada uma com sua beleza própria, é comemorada quando a luz do dia nasce, quando o véu da noite desfaz-se... O mundo é lamentado nos doze meses do ano, no mal próprio de cada dia, é lastimado em todo desmatamento ilegal, em todo atropelamento fatal... A vida é o acorde perfeito, é a vibração da alma, seu verso é o remédio que acalma, enquanto dura seu efeito. O mundo é o fogo que queima, é a ferida que dói, seu verso é o erro que teima, enquanto seu ácido corrói. A vida é mártir, o mundo é tirano, o mártir sempre é cultivado e ceifado pelo tirano. A vida é a realidade fantasiada do sonho, é ver com os olhos do coração. O mundo é a verdade falseada, suponho, é o cisco que trava a visão. Enquanto se consumam esses conflitos entre a alvura da vida e a incúria do mundo, a exploração campeia e adquire cidadania, insensível à inópia da maioria da população. Paira um ar de triunfo no “inferno autotélico”, nos cérebros programados que só entendem a lógica da mais-valia que defendem, quando a mais ruinosa desvalia é a degradação do palco onde é encenada essa contenda entre a Luz e a Treva, que por não conseguirmos conceber, também não podemos controlar. A maior prejudicada pela sociedade industrial é a Genitora universal de todas as coisas, de todos os seres, de todos os homens: a mãe Natureza!
Carlos Henrique Pereira Maia
Enviado por Carlos Henrique Pereira Maia em 31/07/2013
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