

MARGINÁLIA
Na beira da cidade, onde o asfalto se desfazia em poeira e lama e o silêncio ensurdecedor era interrompido apenas pelo dos tiros, existia um lugarejo que não aparecia nos mapas. Chamavam-no de Marginália. Não por acaso. Era um território esquecido pelo Poder Público, dominado pelo crime organizado, onde os atores que não cabiam nos livros de História eram empurrados para fora das páginas. Naquele lugarejo, cada um carregava uma causa da marginalização social da qual era vítima.
Dona Rosa, que trabalhava três turnos para sustentar os três filhos, e ainda assim não conseguia pagar o aluguel do casebre, tinha que pedir dinheiro emprestado. A cidade onde residia só tinha portas abertas para quem já tinha a chave. Seu João, pedreiro, pai de Amanda, homossexual assumida, descendente de quilombolas, lembrava, com os olhos marejados, que sua pele escura era sempre confundida com grave ameaça, mesmo quando trazia consigo apenas livros didáticos. Maria, a menina que sonhava em ser médica, estudava à luz de velas quando a luz era cortada por falta de pagamento. Os jovens grafiteiros pintavam muros para dizer que existiam, mas suas cores eram apagadas pela chuva. O som das sirenes era constante, atordoante, não para proteger — era para monitorar, controlar, conter e calar a voz dos oprimidos. Marginália não era apenas um lugarejo, era um retrato da exclusão social. Cada rosto refletia o peso insuportável de estruturas insensíveis que empurravam os desvalidos para fora do centro, para fora da narrativa oficial. De certo, a marginalização social não nasce do acaso. Nasce das escolhas sociais, políticas e econômicas que constroem muros entre os incluídos e os excluídos. Marginália não é ausência. É presença silenciosa da realidade que insiste em mostrar, em denunciar a injustiça social, a concentração da renda nacional, a precarização do trabalho e a falta de acesso ao mercado de trabalho formal, além do racismo, da misoginia, da homofobia, do capacitismo e do etarismo que, de forma estrutural e interseccional, estão entre as causas principais da marginalização social . Para desconstruir preconceitos, e ampliar o sentido de pertencimento, é necessária a vontade da sociedade politicamente organizada como ferramenta de resiliência e transformação da cultura social. João Ninguém
Carlos Henrique Pereira Maia
Enviado por Carlos Henrique Pereira Maia em 16/09/2026
Alterado em 17/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|