Carlos Henrique Pereira Maia

A arte é um caminho de paz que conduz a Deus, o Artista dos artistas.

Textos

UMA VIDA DE SUPERAÇÃO
Quando o mundo era um brinquedo
Criado nas oficinas da imaginação,
O filho já suportava sobre os ombros
O peso do destino que não escolheu,
Um mundo de intimidação e comando
No lar que nunca o acolheu.
O olhar do pai era muralha,
A palavra, dura sentença.
E o filho, criança, aprendeu cedo
Que o silêncio era abrigo,
E que o choro não tinha lugar
Na casa erguida pela prepotência
De um pai severo que sempre o tratou
Com palavras contundentes.
Qual madeira que range
Contorcida, mas não quebra,
No fundo vazio da noite profunda,
Assim que o mundo se rendia ao sono,
E o vento beijava as folhagens orvalhadas,
O filho acordava, e esperava, e sonhava
Com um pai que fosse porto,
Não prisão, não cela psicológica
Feita de grades de ameaça e coação.
O pai e o filho eram as faces
Da mesma moeda, do mesmo tormento.
O primeiro errou ao acreditar
Que não participava do sofrimento.
O segundo, ao internalizar
A culpa pela relação abusiva.
Hoje, adulto, o filho anda sobre os cacos
Do mundo que deixou para trás,
Carregando cicatrizes invisíveis,
E levando na alma os pedaços
Que restaram do império da força,
Onde o castelo é um tribunal implacável,
E a coroa pesa mais que o amor,
Mais que a justiça, mais que o respeito.
O filho não aceitou a herança de sombras,
Antes encheu de fé e coragem o peito
Para reescrever a própria existência.
E se lhe perguntarem um dia
Quem é, uma legião de fantasmas
Do passado responderá:
— Sou o filho que transformou
Tirania em resistência
E trauma em poesia.

Carlos Henrique Pereira Maia
Enviado por Carlos Henrique Pereira Maia em 17/09/2026
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