

UMA VIDA DE SUPERAÇÃO
Quando o mundo era um brinquedo
Criado nas oficinas da imaginação, O filho já suportava sobre os ombros O peso do destino que não escolheu, Um mundo de intimidação e comando No lar que nunca o acolheu. O olhar do pai era muralha, A palavra, dura sentença. E o filho, criança, aprendeu cedo Que o silêncio era abrigo, E que o choro não tinha lugar Na casa erguida pela prepotência De um pai severo que sempre o tratou Com palavras contundentes. Qual madeira que range Contorcida, mas não quebra, No fundo vazio da noite profunda, Assim que o mundo se rendia ao sono, E o vento beijava as folhagens orvalhadas, O filho acordava, e esperava, e sonhava Com um pai que fosse porto, Não prisão, não cela psicológica Feita de grades de ameaça e coação. O pai e o filho eram as faces Da mesma moeda, do mesmo tormento. O primeiro errou ao acreditar Que não participava do sofrimento. O segundo, ao internalizar A culpa pela relação abusiva. Hoje, adulto, o filho anda sobre os cacos Do mundo que deixou para trás, Carregando cicatrizes invisíveis, E levando na alma os pedaços Que restaram do império da força, Onde o castelo é um tribunal implacável, E a coroa pesa mais que o amor, Mais que a justiça, mais que o respeito. O filho não aceitou a herança de sombras, Antes encheu de fé e coragem o peito Para reescrever a própria existência. E se lhe perguntarem um dia Quem é, uma legião de fantasmas Do passado responderá: — Sou o filho que transformou Tirania em resistência E trauma em poesia.
Carlos Henrique Pereira Maia
Enviado por Carlos Henrique Pereira Maia em 17/09/2026
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